ilustração digital de uma mulher branca de cabelos castanhos curtos. Ela tem um braço mecânico e veste blazer azul escuro sobre camisa branca. A mulher está sentada à mesa com um computador e papéis. Ela está num escritório com pessoas ao fundo.

Representatividade em cargos públicos para combater o capacitismo, o exemplo que precisamos ter!

Acompanhando a área pública e falando com algumas pessoas que são referência no tema políticas públicas e pessoa com deficiência (Cid Torquato e Roberto Rios), me inspirei para escrever o artigo a seguir. 

O capacitismo é o preconceito que afeta diretamente a pessoa com deficiência. Ele alimenta a falsa ideia de que a pessoa com deficiência não é capaz de fazer algo, não seria uma boa profissional, boa mãe e pai, boa especialista, boa consumidora e em grau mais severo, capaz de tomar decisões sobre si mesma.

Desde os tempos em que a humanidade era nômade, ter algum tipo de deficiência trazia prejuízos importantes para a vida, quando a vida se sustentava. A maioria das pessoas que nasciam ou adquiriam algum tipo de deficiência, morriam.

Em muitas culturas a ideia de assistência social cresceu, em especial na idade média, mas ainda assim, a pessoa com deficiência era destituída de credibilidade, que ela não seria capaz de pensamento analítico, de contribuir para a sociedade. Essa crença capacitista tornou-se cruel e passou a criar uma dinâmica social em que familiares de pessoas com deficiência passaram a criar seus filhos como “inválidos”, ou seja, ensinavam as próprias pessoas com deficiência que o papel delas no mundo era de serem assistidas por pessoas sem deficiência, por instituições que se faziam de heroicas e benevolentes.

No século XIX, a revolução industrial amplia a oportunidade de trabalho e renda em linhas de produção e aqui, ter algum tipo de deficiência era sinônimo da “invalidez” que o capacitismo de forma estrutural, fixou na cabeça das pessoas. No Brasil, nossa Consolidação das Leis do Trabalho, realizada na década de 40, incorpora o paradigma do séc XIX e o da revolução industrial criando a ideia de remunerar pessoas por hora, ou seja, empresários querem pessoas que produzam ao máximo, em menos tempo. 

Qualquer necessidade de acessibilidade, era praticamente ignorada e a pessoa descartada. Pior foi a proposta de comparação entre pessoas com e sem deficiência (mesmo sem acessibilidade) para fins de meritocracia. Aqui a discriminação se disfarça de “justiça e igualdade”. 

Até hoje, pessoas sem deficiência que se imaginam solidárias, empáticas e verdadeiras salvadoras das “inválidas” se apresentam para tomar decisões e reger a vida das pessoas com deficiência, partindo da crença de que elas não são capazes de decidir pela própria vida.

 A legislação brasileira ligada ao INSS, analisava as pessoas a partir de um olhar médico, de doença e de incapacidade resultando em diagnósticos e aposentadorias por invalidez. Profissionais da saúde e de cargos públicos não conhecem e não aplicam a CIF (classificação internacional de funcionalidade) ferramenta que amplia as leituras sobre cada pessoa humana, a partir de um novo paradigma, promotor da saúde e da inclusão, mas ainda pouco conhecido.

O maior símbolo do protagonismo e da quebra do capacitismo estrutural são as secretarias e importantes cargos de liderança que tratam de temas ligadas as pessoas com deficiência, como secretarias nacionais, estaduais e municipais da pessoa com deficiência e mobilidade reduzida, a estrutura de promoção do paradesporto e outras milhares de instituições públicas e privadas com foco na construção da inclusão e da dignidade.

O filósofo Friedrich Nietzsche dizia que toda a forma de ajuda ao outro é uma forma de dominação do outro. Embora polêmica, a frase transforma milhares de voluntários e lideranças de instituições públicas em perversas e egocêntricas pessoas. Claro que há exceções, ou seja, pessoas aliadas do tema, mas as verdadeiras aliadas são conscientes do protagonismo das pessoas com deficiência e não ousariam ocupar lugares que devem ser ocupados por elas.

Ter nas instituições que trabalham para a construção da dignidade das pessoas com deficiência as próprias pessoas com deficiência na liderança não é uma opção, é uma necessidade para manter a coerência do órgão e, ainda, para criar um novo paradigma, necessário para combater o capacitismo estrutural. 

Romeu Kazumi SASSAKI em sua obra: Nada sobre nós, sem nós: Da integração à inclusão – Parte 2. Revista Nacional de Reabilitação, ano X, n. 58, set./out. 2007, p.20-30. 2001 nos apresenta a seguinte narrativa histórica sobre o ativista de direitos das pessoas com deficiência, Tom Shakespeare, em sua palestra “Entendendo a Deficiência”, registrou o seguinte posicionamento perante a Conferência Internacional “Deficiência com Atitude”, realizada na University of Western Sydney, Austrália, em fevereiro de 2001: 

“Reconhecer a perícia e a autoridade das pessoas com deficiência é muito importante. O movimento das pessoas com deficiência se resume em falar por nós mesmos. Ele trata de como é ser uma pessoa com deficiência. Ele trata de como é ter este ou aquele tipo de deficiência. Ele trata de exigir que sejamos respeitados como os verdadeiros peritos a respeito de deficiências. Ele se resume no lema Nada Sobre Nós, Sem Nós”.”

 A neurociência contribuiu com essa importância ao descrever que as pessoas passam a acreditar mais e a dar mais valor para aquilo que elas lembram, que está visível, tangível, percebido. Uma pessoa com deficiência liderando grandes e importantes projetos e cadeiras projetam no modelo mental das pessoas um novo paradigma que quebra o estereótipo do capacitismo, estimula a inclusão em todas as esferas e se torna referência para crianças e adolescentes em condições similares para que se empoderem, sonhem e trabalhem para serem o que quiserem ser, escapando da armadilha cultural do assistencialismo alienante que retroalimenta o capacitismo.