Por: Adriano Bandini a partir da sugestão de Cid Torquato
De todos os grupos de pessoas com deficiência que acompanho diariamente (mais de quatro mil), aquelas com deficiência auditiva profunda (surdez) apresentam desafios diferenciados quando o objetivo é conquistar e manter um emprego. Os dois desafios que vou destacar nesse artigo são: a língua (LIBRAS – Língua Brasileira de Sinais) e a estrutura do pensamento com base na LIBRAS em um ambiente que se comunica apenas pelo português.
Uma frase resume minhas observações: as pessoas surdas são estrangeiras no próprio país.
No Brasil, a maior parte das experiências que conheci na contratação de pessoas com deficiência auditiva estão relacionadas com atividades em que a comunicação tem menor impacto na execução das tarefas. O problema é que as vagas com essas características são pouco valorizadas, pouco disponíveis e muitas estão desaparecendo por conta das automações.
Um profissional com surdez, terá o desafio de aprender de forma avançada o português para ter chances de promoção. Até aqui, muitas pessoas aprendem outro idioma com o mesmo objetivo: ampliar as oportunidades profissionais. No entanto, quando uma pessoa fluente em LIBRAS busca se comunicar, ela não encontra ouvintes fluentes em LIBRAS em praticamente nenhum lugar.
Todas as atividades que demandam comunicação, seja uma narrativa simples para um grupo, defender propostas em um projeto ou realizar um atendimento que exige análise e devolutiva, necessitam de uma boa comunicação entre as partes envolvidas para a compreensão e construção coletiva fluírem com qualidade.
A ausência de fluência em LIBRAS por parte dos ouvintes no Brasil, cria uma barreira comunicacional que afeta cerca de 10 milhões de brasileiros, segundo Censo IBGE 2010. A pandemia deixou isso muito evidente na ponta mais sensível de qualquer empresa: o atendimento de clientes surdos que apenas se comunicam em LIBRAS. Imagine uma pessoa surda necessitando de atendimento médico, sem que ninguém no hospital conheça essa língua.
Muitas pessoas surdas utilizam a leitura labial como principal método para captarem as palavras emitidas por outros. No entanto, as máscaras bloquearam o contato visual e mesmo as máscaras transparentes, embaçavam e demandavam cuidados adicionais, não sendo capazes de atender e oferecer qualidade na visualização da boca. Sem LIBRAS, não há comunicação e obviamente, não há inclusão.
Já ouvi que uma empresa não precisa de LIBRAS porque a comunicação por lá acontece por meio de legendas em português. Nesse momento, encontramos o segundo impacto: a barreira comunicacional também acontece na estrutura do pensamento. Qualquer pessoa que aprende uma língua desenvolve seu pensamento e compreensão alinhadas com a estrutura dessa língua. Quando uma outra língua é utilizada para informar algo, o pensamento não fluente naquele idioma capta parte das informações e perde outras.
Os detalhes perdidos aumentam consideravelmente as chances de se cometer erros na interpretação e execução de um procedimento, impactando diretamente sua performance profissional, sua autoestima e a satisfação dos clientes. A promoção para vagas que demandam mais comunicação enfrentará o capacitismo, presente no desconforto de gestores ouvintes que, desconhecendo LIBRAS, não estão abertos para terem “mais trabalho em aprender um idioma novo”.
Para eliminar a barreira comunicacional e ampliar significativamente a empregabilidade da pessoa surda, algumas empresas oferecem cursos de LIBRAS para seus colaboradores. O problema é que chamam de curso, uma oficina, um workshop que minimamente consegue explicar o que é LIBRAS e sua importância para o Brasil.
Aprender LIBRAS é a principal recomendação para inclusão desse grupo, mas temos pressa para incluir. Podemos ao mesmo tempo em que as pessoas se empenham para aprender essa língua, disponibilizar soluções tecnológicas que oferecem intérpretes em qualquer lugar.
Os serviços de intermediação de LIBRAS x português por videochamadas são uma ótima forma de ampliar essa acessibilidade. Além da possibilidade de usar o próprio celular como um canal para realizar videochamadas, empresas se especializaram em ofertar esse serviço de forma escalonada, derrubando custos e democratizando o acesso a essa ferramenta.
Essa solução pode ser utilizada pela pessoa surda que, estando em uma empresa, ativa a videochamada sempre que precisar, ou pela empresa que, recebendo clientes surdos, aciona o intérprete humano e realiza o atendimento. Simples e funcional.
E os avatares? Sim, eles existem, mas a recomendação é que sejam utilizados em informes fixos e padronizados, assim como um texto em português que é fixo e sem atividade negocial.
Você conhece esses serviços? Teve experiências com o atendimento de pessoas surdas?
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