Em 2013, após completar dois anos de atuação à frente do tema diversidade e inclusão em uma grande empresa, tornei-me a referência interna para tratar os “casos estranhos” que envolvessem os colaboradores. Sempre que uma situação fugia dos habituais processos de recurso humanos e ninguém sabia o que fazer, eu era acionado. Um desses casos foi a da Magali (nome fictício).
Magali era uma assistente contratada há mais de sete anos e que estava apresentando um “comportamento estranho” (palavras da pessoa de recursos humanos responsável pelo acompanhamento do setor onde ela trabalhava). Magali tinha trinta e oito anos e um histórico profissional marcado por muitas transferências entre áreas e poucos vínculos de amizade na empresa.
Durante todos esses anos, Magali realizava tarefas administrativas de baixa complexidade em áreas operacionais e, mesmo assim, colecionava históricos de baixa performance. Naquele momento, após mais um ano de avaliações ruins, a gestora decidiu que Magali não poderia continuar exercendo a atividade que fazia (pois gerava muito retrabalho para o time) que, por essa razão, a tratava de forma excludente.
Magali foi realocada para uma posição de “recepcionista” em um andar que não necessitava desse serviço. Ficava horas e horas do dia sentada em frente aos elevadores, aguardando que alguma pessoa aparecesse em seu andar para então perguntar aonde ela iria, com quem gostaria de falar e direcioná-la para o lado correto do andar.
Aconteceu que o diretor executivo responsável por aquela unidade ao chegar no andar onde Magali atuava, foi interceptado de forma “grosseira”, em especial, por não receber a identificação e as respostas sobre onde ele iria e com quem conversaria. Ela simplesmente não o permitiu seguir.
A situação embaraçosa foi contornada pela supervisora da unidade, mas expôs MAGALI de forma negativa ao executivo que solicitou uma “solução” para a atuação da colaboradora.
Ao ouvir o relato, decidi ir até a unidade e conhecê-la pessoalmente. Ao chegar lá, ela havia abandonado seu posto de trabalho. Por ter sido avisada que “uma pessoa do RH queria falar com ela”, Magali literalmente se escondeu em salas de reunião existentes no andar com medo.
Após encontrá-la e explicar que meu objetivo era apenas conhecê-la para conversar sobre suas atividades, tive a percepção que se tratava de uma pessoa com deficiência intelectual, porém, ainda não diagnosticada formalmente.
Solicitei a um fornecedor especializado em inclusão de pessoas com deficiência intelectual que realizassem uma avaliação e diagnóstico da Magali, de forma que me confirmassem a hipótese e me indicassem quais atividades se adequariam melhor para o perfil profissional dela.
Realizadas as avaliações, o diagnóstico foi confirmado. Com o laudo em mãos, atualizamos os registros da colaboradora, a enquadramos na cota de pessoa com deficiência já com sua anuência e a incluímos em um programa de Emprego Apoiado já existente há alguns anos, exclusivo para contratação e desenvolvimento de colaboradores com deficiência intelectual, projeto chamado a época de Somar.
Com as reuniões bimestrais de desenvolvimento, tutoria adequada e direcionamento das atividades alinhadas com seu perfil profissional, Magali finalmente se consolidou em uma das agências da empresa e seguiu de forma estável em sua atividade profissional.
Mas a história não acabou. Em 2016, três anos após sua realocação para um local mais adequado, fomos acionados novamente, agora pela nova gestora, que se queixou de comportamentos “birrentos” e de desrespeito e insubordinação. Esses comportamentos aconteciam inclusive na frente dos clientes.
Nosso fornecedor, especialista no tema, realizou nova intervenção e treinos para readequar os comportamentos de Magali, além de garantir que ela compreendesse a importância de respeitar as orientações da gestora, em especial, em frente aos clientes.
Mesmo com muita consciência e treino, Magali de forma proposital, voltou a confrontar a gestora. Na ocasião, foi advertida formalmente de forma a compreender que, caso aquele comportamento voltasse a ocorrer, ela poderia ser desligada da empresa.
Após alguns meses, o comportamento dela voltou a causar problemas com outro cliente, de tal forma que sua presença na empresa se tornou insustentável. Após muita análise de alternativas e devido ao cenário de redução da quantidade de agências da companhia no Brasil, não nos sobrou alternativa senão seguir com o desligamento.
Por se tratar de uma pessoa com deficiência intelectual ainda que leve e mesmo ela não sendo uma pessoa interditada, decidi que para realizar a comunicação e formalidades do desligamento, Magali deveria comparecer à empresa com a presença de, pelo menos, uma pessoa de sua confiança.
Ela nos passou o nome e telefone de sua mãe, pessoa com quem morava e nos confirmou a presença para uma reunião no endereço administrativo da empresa.
Como não se tratava de uma situação usual, no dia anterior a data da reunião, liguei para a mãe da Magali confirmando sua presença. Fui bem atendido e após as confirmações necessárias, a mãe me surpreendeu com uma pergunta:
—- Senhor Adriano, aproveitando nosso contato, por favor, gostaria de perguntar uma coisa sobre a Magali. Há alguns anos ela foi, a pedido da empresa, realizar alguns exames. No início estranhei, mas percebi que os resultados ajudaram a manter o emprego de minha filha e somos gratos por isso. No entanto, eu gostaria de saber qual foi o diagnóstico resultante desse exame uma vez que a Magali não quis compartilhar conosco.
Aquela pergunta me pegou de surpresa e caiu como uma bomba. Em um milésimo de segundo, passou diante de meus olhos o filme da vida dela, e tudo passou a fazer sentido.
Respondi à mãe que poderia sim falar sobre o resultado desse exame se Magali me autorizasse, mas gostaria de fazê-lo pessoalmente. Agendamos para o dia seguinte, aproveitando que já estaríamos juntos.
No dia seguinte, chegaram para nossa reunião a Magali, sua mãe e seu pai. Ela estava com uma expressão bastante fechada e agitada. Expliquei em particular para a Magali que eu precisaria falar com os pais sobre todo nosso histórico profissional, incluindo o diagnóstico e sobre a participação no projeto Somar. Ela consentiu, mas pediu para não participar da reunião.
Ao entrar apenas com os pais na sala reservada, apresentei a psicóloga que realizou o diagnóstico e que já estava nos aguardando. Eu disse aos pais que a filha deles já com seus quarenta anos de idade tinha deficiência intelectual e que, por isso, seus comportamentos e forma de pensar eram um pouco diferentes das referências que a família me apresentava. Expliquei em detalhes o diagnóstico e como adaptamos a metodologia de trabalho, levando por um grande período, sucesso às atividades da Magali.
A mãe recebeu a notícia com muita dor e chorou muito. No início, perguntou se essa deficiência poderia evoluir para um quadro de esquizofrenia, diagnóstico que um outro familiar já possuía. Explicamos as diferenças entre a doença mental e a deficiência intelectual e percebemos um grande alívio por parte da família.
Entendida a realidade da filha, os pais se comprometeram a apoiá-la no processo de desligamento que aconteceria e assim o fizeram, tornando a dor desse momento menos solitária. Ofereci aos pais e à ela, o seguinte apoio institucional: como ela participava de um projeto bem estruturado de emprego apoiado, criamos um módulo adicional à metodologia existente chamado: apoio ao desligamento e recolocação profissional.
Trata-se de até 12 sessões realizada por equipe multidisciplinar com o objetivo de ajudá-la a elaborar o luto da perda, treinar os comportamentos adequados e ser encaminhada para entrevistas em outras empresas com iniciativas similares.
Os pais também receberiam apoio psicológico do nosso fornecedor para aprenderem como orientar e apoiar uma pessoa com deficiência intelectual nas atividades da vida diária.
Em resumo, o filme que vi passar naquele milésimo de segundo foi de uma família que demorou mais de 40 anos para descobrir (e aceitar) que a filha tinha deficiência intelectual.
As consequências dessa desinformação foram muito sofrimento para todas as partes, frustrações e vergonha. Após ouvir os relatos dos pais sobre a infância e juventude da filha, de ouvir os relatos e queixas da Magali sobre a dinâmica familiar, incluindo sua dor ao tentar alcançar o “modelo inalcançável” que os pais desejavam para ela, compreendi a origem do comportamento inadequado.
Todos os resultados frustrantes da Magali, desde os tempos de escola, os atrasos em comparação a pessoas sem deficiência, a compulsão de comer, a obesidade (julgada como gula e preguiça) causava o afastamento e o abandono emocional que só eram interrompidos em momentos de crise, quando a família se aproximava e se interessava por ela.
Ao desligá-la da empresa sem oferecer algum apoio para mudar esse cenário, eu seria apenas mais uma experiência de fracasso de uma filha, de uma mãe e de uma família inteira.
Sei que não é usual e reconheço que fazer leituras de cenário de forma tão ampla no mundo corporativo é difícil de ser realizado. Ouvi de algumas pessoas que esse não é o papel da empresa, fazendo com que a prática fosse quase utópica, mas esse é um dos desafios e soluções que atuar com o tema Diversidade nos permite! Pelo menos no caso dessa família, nosso trabalho fez a diferença para melhor.









